Automação

Mineração de Processos: o Que É e Como Aplicar

Mineracao de processos

A maioria das empresas brasileiras não sabe, com precisão, como seus processos funcionam de ponta a ponta. Existe o fluxograma oficial, aprovado em algum comitê, e existe a realidade cheia de atalhos, retrabalho e exceções que ninguém documentou. Essa distância é o motivo pelo qual tantos projetos de automação entregam menos do que prometeram.

A mineração de processos existe justamente para fechar essa lacuna. Em vez de depender de entrevistas e memória institucional, ela usa os registros que os próprios sistemas de TI já geram como aprovações e transações registradas com data e hora para reconstruir o processo como ele realmente acontece. Como esses registros frequentemente identificam pessoas, o projeto deve ser desenhado com finalidade específica, minimização de dados e avaliação de necessidade e proporcionalidade antes de qualquer coleta.

Este guia explica o conceito, mostra como ele funciona na prática, compara com o BPM tradicional e detalha os cuidados de LGPD envolvidos ao analisar logs que contêm dados de funcionários e clientes. O objetivo é dar ao gestor de operações e TI um mapa claro para decidir se e como começar um projeto de diagnóstico de processos antes de investir em automação.

Resumo Executivo

  • Mineração de processos (process mining) reconstrói o fluxo real de um processo a partir dos logs de eventos gerados por sistemas como ERP, CRM e ITSM, eliminando o viés das entrevistas manuais.
  • É observação recorrente na literatura de process mining associada a Wil van der Aalst e à TU Eindhoven que processos empresariais frequentemente se desviam do fluxo formalmente desenhado, embora a magnitude exata varie por setor e não haja um percentual único e consolidado aplicável a todas as empresas, o que torna o diagnóstico baseado em dados essencial antes de qualquer automação.
  • Automatizar um processo sem mapeá-lo com dados reais tende a acelerar o erro existente; a mineração de processos ajuda a priorizar onde o RPA e a IA têm maior probabilidade de gerar retorno, embora o resultado final dependa da qualidade dos dados, do escopo do modelo e de validação contínua.
  • Como analisa logs com dados pessoais (usuário, IP, timestamps de execução), todo projeto de process mining exige base legal, anonimização e governança alinhadas à LGPD.
  • O mercado oferece ferramentas com diferentes níveis de maturidade de soluções enterprise como Celonis e UiPath a alternativas open source como o ProM e a escolha depende do volume de dados e da integração com os sistemas já usados na empresa.

O que é mineração de processos?

Mineração de processos é a técnica que usa os registros de eventos (logs) já gerados pelos sistemas de TI da empresa para reconstruir, de forma automática e baseada em dados, como um processo realmente ocorre do início ao fim, com todos os desvios e exceções. Ela transforma dados brutos de sistemas transacionais em um mapa visual e analisável do processo real.

O conceito nasceu no campo acadêmico de ciência de dados aplicada a processos, com contribuições centrais de Wil van der Aalst e do grupo de pesquisa da TU Eindhoven — Process Mining research group, 2024. A disciplina cresceu a ponto de ter uma força-tarefa dedicada dentro do IEEE, reunindo pesquisadores e fornecedores de software em torno de padrões comuns, como descreve o IEEE Task Force on Process Mining.

A diferença central que sustenta toda a disciplina é simples de enunciar: existe o processo “desenhado”, documentado em um manual ou fluxograma oficial, e existe o processo “executado”, que é o que efetivamente acontece nos sistemas todos os dias. A mineração de processos trabalha exclusivamente sobre o segundo.

Existem três tipos principais de análise dentro da técnica. Discovery (descoberta) constrói o modelo do processo do zero, a partir dos dados. Conformance checking (verificação de conformidade) compara o processo real com um modelo de referência para apontar desvios. Enhancement (aprimoramento) usa os dados para enriquecer ou corrigir um modelo já existente, adicionando informações de tempo, custo ou recursos envolvidos.

Como funciona a mineração de processos na prática?

A mineração de processos funciona extraindo logs de eventos de sistemas transacionais, estruturando esses dados em um formato padrão (event log) e aplicando algoritmos que reconstroem o fluxo do processo em um mapa visual. Não é preciso construir nada do zero — os dados já existem, dispersos, dentro dos sistemas que a empresa usa no dia a dia.

Um log de eventos minimamente estruturado precisa de três elementos: um identificador de caso (case ID, como o número de um pedido ou chamado), o nome da atividade executada e um timestamp preciso de quando ela ocorreu. A partir desses três campos, o algoritmo já consegue montar a sequência de passos de cada instância do processo.

Os sistemas de origem mais comuns em empresas brasileiras incluem ERPs como SAP e soluções nacionais, plataformas de CRM como Salesforce, ferramentas de ITSM como o ServiceNow e bancos de dados internos de sistemas legados. Quanto mais fragmentado o ambiente de TI, mais trabalho de integração o projeto exige — e isso é relevante no Brasil, onde uma parte significativa das empresas de médio e grande porte opera com múltiplos sistemas não totalmente integrados entre si, segundo levantamentos setoriais de TI corporativa.

O pipeline típico segue quatro etapas: extração dos dados brutos dos sistemas, transformação e limpeza para o formato de log padrão, descoberta do modelo de processo por algoritmo e, por fim, análise de conformidade e identificação de oportunidades.

[INSIGHT ORIGINAL] A etapa de extração e limpeza costuma consumir mais tempo do que a análise em si, não porque os algoritmos sejam complexos, mas porque os dados corporativos raramente nascem prontos para esse tipo de leitura, especialmente quando vêm de sistemas legados sem padronização de nomenclatura entre departamentos.

Extração -> Estruturação de dados -> Descoberta do modelo -> Análise de conformidade -> Priorização automação

Extração Estruturação de dados Descoberta do modelo Análise de conformidade Priorização automação
Fonte: elaborado pela Mabex com base em Celonis — Process Mining Overview, e IEEE Task Force on Process Mining.

Qual a diferença entre mineração de processos e BPM tradicional?

O BPM tradicional depende de entrevistas e workshops para desenhar o processo “como deveria ser”; a mineração de processos usa dados reais de execução para mostrar o processo “como ele é”, eliminando o viés subjetivo do mapeamento manual. As duas abordagens não competem — elas respondem perguntas diferentes.

O mapeamento manual clássico de BPM tem limitações conhecidas: depende da memória e da percepção de quem participa das entrevistas, consome tempo considerável de pessoas-chave da operação e fica desatualizado rapidamente conforme o processo evolui sem que o fluxograma seja revisado. Isso não invalida o BPM — apenas mostra onde ele precisa de reforço.

A complementaridade é o ponto mais importante aqui. O BPM define o processo desejado, a governança e os indicadores de sucesso; a mineração de processos verifica se a realidade está de acordo com esse desenho e aponta exatamente onde diverge.

Na prática, a recomendação é usar BPM para estabelecer o padrão e a mineração de processos para auditar continuamente se esse padrão está sendo seguido — e, quando não está, entender se o desvio é um problema a corrigir ou uma melhoria a formalizar.

Quais problemas a mineração de processos revela?

A mineração de processos revela gargalos, retrabalho, desvios de conformidade, tempos de espera ocultos e caminhos alternativos que nenhuma entrevista com colaboradores costuma capturar. Isso acontece porque a técnica trabalha sobre o volume total de instâncias do processo, não sobre a percepção de um punhado de pessoas entrevistadas.

Retrabalho e loops não documentados aparecem com frequência quando um caso volta para uma etapa anterior — um pedido que retorna para aprovação múltiplas vezes, por exemplo — sem que isso conste em nenhum manual. Desvios de SLA e de conformidade também ficam visíveis: etapas que deveriam ocorrer em sequência aparecem fora de ordem, ou aprovações formais são puladas em uma parte relevante dos casos.

É um achado qualitativo recorrente na literatura da área que processos empresariais frequentemente não seguem o fluxo formalmente desenhado, conforme discutido em pesquisas associadas ao grupo da TU Eindhoven — Process Mining research group e à obra de referência Wil van der Aalst — Process Mining: Data Science in Action. Esse achado sustenta a tese central deste artigo: sem dados, a gestão está decidindo sobre uma versão idealizada do processo, não sobre o processo real.

Mineracao de processos

Exceções também merecem atenção especial. É comum que uma pequena fração dos casos — os chamados outliers — consuma uma parcela desproporcional do tempo total e dos recursos da equipe. Identificar esses casos com precisão é algo que a mineração de processos faz naturalmente, ao ordenar instâncias por duração e frequência de desvio.

Por que a mineração de processos é o primeiro passo antes de automatizar?

Automatizar um processo mal compreendido apenas acelera o erro; a mineração de processos garante que o RPA, a IA ou a automação de fluxo sejam aplicados exatamente onde geram retorno real, com o desenho correto do processo. Esse é o argumento central deste artigo pilar.

Pesquisas de mercado sobre automação corporativa indicam que uma proporção relevante dos projetos de RPA entrega resultado abaixo do esperado ou é descontinuada, segundo levantamentos como o Deloitte — Global Robotic Process Automation Survey. Uma causa recorrente apontada nesses estudos é a automação construída sobre uma suposição incorreta de como o processo funciona na prática.

No Brasil, esse risco se soma a outro fator: uma parte considerável das empresas ainda inicia projetos de automação sem qualquer mapeamento prévio baseado em dados, apoiando-se apenas na percepção das equipes de negócio. O resultado é previsível — bots automatizando exceções raras, ou robotizando um passo que já era, ele mesmo, o gargalo do processo.

A mineração de processos resolve isso ao priorizar candidatos à automação com base em critérios objetivos: volume de execuções, tempo consumido, variabilidade do caminho e impacto financeiro. Projetos de hiperautomação, que combinam IA e RPA na prática, se beneficiam diretamente dessa priorização, porque conseguem direcionar investimento para onde o ganho é mensurável, e não apenas para onde é mais fácil automatizar. Da mesma forma, iniciativas específicas de automação de processos com RPA ganham taxa de sucesso maior quando partem de um diagnóstico de dados, e não de uma suposição de fluxo.

[INSIGHT ORIGINAL] Em nossa experiência com diagnósticos de clientes, é comum observar que o gargalo percebido pela gestão nem sempre coincide com o gargalo real identificado nos dados — geralmente porque o gargalo verdadeiro está em uma etapa de espera humana (aprovação, validação manual) que ninguém reporta como problema por já estar “naturalizada” na rotina da equipe. Vale ressaltar que nem toda etapa humana identificada como lenta deve ser eliminada: etapas de validação manual frequentemente existem como salvaguarda de qualidade, conformidade ou revisão crítica, e sua remoção deve ser avaliada com cautela, preservando o direito à supervisão humana em decisões de maior impacto.

Quais ferramentas de mineração de processos existem no mercado?

O mercado oferece ferramentas como Celonis, UiPath Process Mining, Microsoft Power Automate Process Advisor e soluções open source como o ProM, cada uma com diferente nível de maturidade e integração. A escolha correta depende menos da marca e mais do ambiente de dados da empresa.

Ferramentas enterprise, como descritas pela própria Celonis — Process Mining Overview e pela UiPath — Process Mining Solutions, oferecem conectores prontos para ERPs corporativos, painéis analíticos avançados e capacidade de escalar para milhões de eventos. Soluções open source, como o ProM, são mais indicadas para times técnicos que já têm capacidade de engenharia de dados e querem validar o valor da técnica antes de investir em licenciamento.

CritérioFerramentas enterprise (Celonis, UiPath)Soluções open source (ProM)
Integração com ERP/CRMConectores prontosRequer integração manual
Curva de aprendizadoMenor, interface guiadaMaior, exige conhecimento técnico
Custo inicialLicenciamento elevadoBaixo ou nulo
Escala de dadosAlta, milhões de eventosDepende da infraestrutura própria
Suporte a IA generativaRecursos nativos crescentesLimitado, depende de plugins

O Gartner — Market Guide for Process Mining descreve o segmento como um mercado em expansão, impulsionado justamente pela integração crescente entre process mining e IA generativa, que passa a sugerir possíveis ações de correção e priorização a partir do modelo descoberto — sugestões essas que, por serem geradas por modelos estatísticos sujeitos a erros e imprecisões, exigem validação humana antes de qualquer implementação — e não apenas exibir o mapa do processo.

Mineração de processos exige cuidados com LGPD?

Sim — como a mineração de processos analisa logs que frequentemente contêm dados pessoais de funcionários e clientes (quem executou a tarefa, quando, em qual sistema), o projeto precisa de base legal, anonimização e controle de acesso alinhados à LGPD. Ignorar essa camada não é apenas um erro caro — é uma violação de direito fundamental à privacidade (art. 5º, X, CF; art. 2º, LGPD), que deve ser considerada desde a concepção do projeto (privacy by design), e não corrigida a posteriori.

Dados pessoais aparecem em logs de eventos com mais frequência do que se imagina: identificação do usuário que executou a tarefa, endereço IP da estação de trabalho, timestamps que, se cruzados, podem permitir reconstruir a rotina de um colaborador específico — uso que exige finalidade expressamente declarada, proporcionalidade e vedação a qualquer utilização para vigilância disciplinar não prevista na base legal do projeto e, em processos que tocam o cliente final, dados de atendimento e transação. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) trata esse tipo de informação como dado pessoal sujeito a base legal e finalidade específica, mesmo quando o objetivo do projeto é apenas melhorar um processo interno.

Pseudonimização (ex.: hashing ou tokenização de identificadores de usuário) antes da análise é prática recomendada para reduzir a exposição de identidade em relatórios e dashboards.

É importante notar que dados pseudonimizados permanecem sob o escopo da LGPD, pois são potencialmente reversíveis; a anonimização plena (irreversível) elimina esse enquadramento, mas costuma reduzir a utilidade analítica do log de eventos, já que informações de ator/timestamp granular são centrais para a mineração de processos. A LGPD (art. 46) exige que agentes de tratamento adotem medidas de segurança técnicas e administrativas aptas a proteger dados pessoais de acessos não autorizados, e a ANPD reforça continuamente essa exigência em suas orientações, o que se aplica diretamente a esse tipo de análise de logs operacionais.

Quando recursos de IA generativa são usados para sugerir ações a partir desses dados (como descrito na seção sobre ferramentas de mercado), é preciso avaliar se dados pessoais estão sendo enviados a provedores externos de IA, e garantir, conforme o art. 20 da LGPD, que decisões que afetem pessoas não sejam tomadas exclusivamente de forma automatizada, sem possibilidade de revisão humana.

O papel do encarregado de dados (DPO) precisa ser formal, não simbólico: aprovar a base legal do projeto, revisar quais campos serão coletados, garantir que o acesso ao dashboard final seja restrito a quem precisa dele para tomar decisão, e assegurar que os titulares (funcionários e clientes) sejam informados do tratamento e tenham direito a solicitar revisão humana de qualquer decisão relevante tomada com base nesses dados, conforme art. 9º e art. 20 da LGPD.

Alinhar esse controle a normas reconhecidas, como a ISO/IEC 27001 (Sistema de Gestão de Segurança da Informação) para os controles gerais de acesso e proteção de dados, e a ISO/IEC 27701 (extensão de privacidade), reduz significativamente o risco de incidente durante o próprio projeto de diagnóstico.

Vale observar ainda que, se o processo minerado alimentar decisões automatizadas sobre pessoas (por exemplo, crédito, RH ou atendimento), a empresa deve acompanhar a evolução do PL 2338/2023 (Marco Legal da IA), atualmente em tramitação no Congresso, que propõe uma abordagem baseada em risco similar à do AI Act europeu e pode trazer, no futuro, obrigações adicionais de transparência e supervisão humana para sistemas de IA de maior risco.

Perguntas Frequentes

O que é mineração de processos, em uma frase?
É a técnica que usa os logs de eventos gerados pelos sistemas de TI de uma empresa para reconstruir, com dados reais, como um processo de negócio efetivamente acontece, incluindo gargalos e exceções não documentados.

Mineração de processos é a mesma coisa que RPA?
Não. RPA automatiza tarefas repetitivas com robôs de software; a mineração de processos diagnostica, com dados, onde e como automatizar gera retorno real, servindo como etapa anterior e complementar ao RPA.

Quanto tempo leva um projeto de mineração de processos?
Varia com a complexidade dos sistemas envolvidos, mas um diagnóstico inicial focado em um processo específico costuma levar de algumas semanas a poucos meses, sendo a extração e limpeza dos dados a etapa que mais consome tempo.

Preciso de equipe de dados para implementar process mining?
É recomendável ter ao menos um analista com conhecimento de SQL e integração de sistemas, ainda que ferramentas enterprise reduzam essa barreira com conectores prontos; empresas sem essa capacidade interna costumam contar com apoio de consultoria especializada na fase inicial.

A mineração de processos substitui o BPM?
Não substitui, complementa. O BPM define como o processo deveria funcionar e estabelece governança; a mineração de processos verifica continuamente se a execução real está alinhada a esse desenho e aponta onde corrigir ou formalizar desvios.

Fontes:

  1. ANPD — Autoridade Nacional de Proteção de Dados
  2. Relatório Anual de Atividades da ANPD
  3. Gartner — Market Guide for Process Mining
  4. Wil van der Aalst — Process Mining: Data Science in Action
  5. TU Eindhoven — Process Mining research group
  6. IEEE Task Force on Process Mining
  7. Celonis — Process Mining Overview
  8. UiPath — Process Mining Solutions
  9. ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas
  10. ISO/IEC 27001 — Information Security Management
  11. ABES — Associação Brasileira das Empresas de Software
  12. McKinsey Digital — The State of Automation
  13. Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), Planalto

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